Ver Vendo

Em 1992, o escritor e jornalista Otto Lara Resende publicou na Folha de S.Paulo uma crônica curta chamada Vista Cansada. São menos de quinhentas palavras. Mas há nelas um diagnóstico que corta fundo — e que, lido à luz dos Evangelhos, revela algo sobre o modo como Jesus via as pessoas e sobre o modo como nós, quase sempre, deixamos de vê-las.

O porteiro que precisou morrer para ser notado.

A história que Resende conta é simples e devastadora. Um profissional passa trinta e dois anos cruzando o mesmo hall de edifício, cumprimentando o mesmo porteiro. Trocam bom-dias, recados, correspondências. A rotina produz a ilusão do conhecimento — afinal, eles se viam todos os dias.

Um dia, o porteiro morre. E o profissional percebe, com horror, que não sabe absolutamente nada sobre aquele homem. Sua face. Sua voz. Como ele se vestia. O nome da mulher, se havia filhos, de onde vinha. Trinta e dois anos de cruzamentos e nenhum deles foi, de fato, um encontro.

“Em trinta e dois anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer.”

“De tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.”Otto Lara Resende — Vista Cansada, Folha de S.Paulo, 23/02/1992

Resende nomeou isso de vista cansada. O olhar que se apaga com a rotina. O hábito que, sem que a gente perceba, vai sujando os olhos e baixando sua voltagem até que o campo visual se torna uma espécie de vazio funcional — as coisas estão lá, mas ninguém as vê de verdade.

O escritor também fez um diagnóstico que incomoda ainda mais: “Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia a dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.”

A indiferença não requer maldade. Basta rotina.

O profissional de Resende não era uma pessoa má. Era uma pessoa comum. E na rotina do discipulado, na rotina do casamento, na rotina da liderança — é perfeitamente possível passar meses ao lado de alguém sem nunca tê-la visto de verdade.

Não porque não se importe. Mas porque o hábito apagou o olhar.

Quando chegamos aos Evangelhos carregando essa imagem — o porteiro invisível, o olhar embotado, o monstro da indiferença instalado no coração — algo acontece com as cenas de Jesus. Elas ficam mais nítidas. Mais perturbadoras. Mais bonitas.

Os três olhares — e o que Jesus disse sobre cada um

Resende descreveu três tipos de olhar. Jesus também.

O escritor não estava fazendo teologia. Mas ao mapear os modos de ver, chegou a um território que os Evangelhos conhecem bem. Há três figuras no texto de Resende — a criança, o poeta, o adulto de rotina — e Jesus tinha algo a dizer sobre cada uma delas.

1

A criança e o olhar limpo

Resende preferia ver as coisas como se fosse a primeira vez — com os olhos limpos da criança, sem o acúmulo de impressões que torna o mundo previsível demais para ser visto.

Mateus 18:3

2

O poeta e o olho bom

Resende define o poeta como alguém com “um certo modo de ver” — aquele que é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém mais enxerga.

Mateus 6:22

3

O adulto e o olho opaco

O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. O que era pessoa vira paisagem. O que era nome vira rótulo. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

Marcos 8:18

1. A criança e o olhar limpo

Resende tinha uma preferência clara: os olhos da criança. Limpos, atentos, sem o acúmulo de impressões que torna o mundo previsível demais para ser visto. Jesus disse algo parecido — mas com uma radicalidade que vai além da estética do olhar.

Jesus sobre o olhar da criança

“Em verdade vos digo: se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.”

Mateus 18:3

Jesus não estava elogiando a inocência moral das crianças. Estava apontando para a qualidade do olhar delas — receptivo, desbloqueado, sem o filtro de quem já classificou as pessoas antes de vê-las. Tornar-se como criança é, entre outras coisas, aprender a ver sem o peso da rotina.

2. O poeta e o olho bom

Resende define o poeta como alguém com “um certo modo de ver” — aquele capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém mais enxerga. Jesus usou uma imagem surpreendentemente próxima.

Jesus sobre o olho bom

“Os olhos são a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será cheio de luz.”

Mateus 6:22

O olho bom, no original grego, carrega a ideia de generosidade, atenção e intenção. É o olho que ilumina o que toca — não apenas registra, mas transforma pela qualidade da atenção que dirige às coisas e às pessoas. O discipulador com olho bom não apenas encontra alguém — ilumina.

3. O adulto de rotina e o olho opaco

Resende escreve que “o hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem” e que “é por aí que se instala no coração o monstro da indiferença”. Jesus disse o mesmo — com palavras mais diretas, e mais perturbadoras, porque as dirigiu aos próprios discípulos.

Jesus sobre o olhar que não vê mais

“Tendo olhos, não vedes? Tendo ouvidos, não ouvis? E não vos lembrais?”

Marcos 8:18

Ele falava a homens que viviam com Jesus, que haviam presenciado multiplicações de pães e curas de cegos — e ainda assim estavam desenvolvendo uma espécie de cegueira espiritual pela familiaridade. A vista cansada não poupa os que estão perto. Às vezes, é exatamente nesses que ela age com mais força.

A vista cansada por dentro

A voz que você aprendeu a acreditar.

A vista cansada não acontece apenas nos olhos que não veem os outros. Ela também acontece nos olhos que não conseguem mais se ver — com clareza, com generosidade, com a verdade.

A vergonha funciona como o hábito de Resende: ela vai, pouco a pouco, sujando o ângulo pelo qual você se enxerga. Começa com palavras que outros disseram. Com silêncios que feriram mais do que frases. Com rejeições que não tiveram explicação. E, com o tempo, você não precisa mais que ninguém diga essas coisas — você mesmo passa a dizê-las, com mais eficiência e mais crueldade do que qualquer pessoa de fora jamais poderia.

A voz se instala por dentro. E começa a parecer sua.

“O problema não é apenas o que aconteceu com você. É o que você concluiu sobre si mesmo por causa do que aconteceu.”

Essa distinção é crucial. A vergonha não é uma emoção sobre o que você fez — é uma crença sobre o que você é. E é por isso que ela é tão difícil de curar: não basta mudar o comportamento. É preciso mudar o ângulo do olhar.

Resende também escreveu: “Há pai que nunca viu o próprio filho.” Mas há também aquele que, por ter sido mal visto por seu pai, nunca aprendeu a se ver direito. A vista cansada passa de geração para geração. E cura quando encontra um olhar que não se cansa.

O diagnóstico bíblico do olhar que não vê

“O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir.”

João 10:10a

A voz da vergonha rouba a sua identidade antes que você perceba o que está acontecendo. Ela mata a capacidade de receber amor. Ela destrói relacionamentos antes que eles tenham chance de curar. Reconhecer a fonte muda tudo. E a fonte não é Deus.

Como Jesus olhava as pessoas

Jesus nunca teve vista cansada.

Nos Evangelhos, cada pessoa que entra em contato com Jesus é tratada como se fosse a única — porque, para Ele, era. Onde a multidão via rótulo, Jesus via nome. Onde a religião via pecado, Jesus via sede. Onde a sociedade via passado, Jesus via futuro.

O olhar de Jesus não era panorâmico. Era cirúrgico. Não registrava — iluminava. Não classificava — nomeava. E nunca, em nenhum registro dos Evangelhos, ele deixou de ver alguém por cansaço, por rotina ou por familiaridade.

“O verbo encadeado de Mateus 9: Jesus viu — o que viu gerou compaixão — a compaixão gerou missão. Não havia distância entre o olhar e o coração.”

O olhar que se move

“Vendo as multidões, Jesus teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor.”

Mateus 9:36

Resende alertava que o adulto de rotina vê sem ver. Jesus via e era imediatamente afetado pelo que via. Ver gerava compaixão. Compaixão gerava missão. O olhar de Jesus nunca era passivo — ele sempre desembocava em movimento.

O olhar que não olha as aparências

“O homem olha as aparências, mas o Senhor olha o coração.”

1 Samuel 16:7

A vista cansada é superficial por natureza — ela para na aparência, no rótulo, na categoria. O olhar de Deus atravessa tudo isso e vai ao coração. Ao que está por baixo da resposta automática. À sede que há por trás da sede.

Quatro cenas nos Evangelhos

Quatro pessoas. Um mesmo olhar.

Cada uma dessas cenas ilumina uma dimensão diferente do modo como Jesus via as pessoas. Juntas, elas constroem o retrato mais completo do olhar que não se cansa.

Cena 1 · Lucas 19:1-10

Zaqueu — o olhar que nomeia.

Havia uma multidão. E havia Zaqueu — pequeno, invisível por escolha, escalado em cima de uma árvore justamente para não ser visto de perto enquanto via de longe. Todos sabiam quem ele era: cobrador de impostos, colaborador dos romanos, traidor. Quando alguém já tem um rótulo, deixa de ser uma pessoa. Vira uma categoria.

Lucas 19:5

“Quando Jesus chegou àquele lugar, olhou para cima e disse: Zaqueu, desce logo, pois hoje preciso ficar em tua casa.”

Lucas 19:5

Jesus atravessou a multidão inteira com o olhar e encontrou aquele homem específico. Chamou pelo nome. Declarou necessidade de proximidade — não “posso”, mas “preciso”. O olhar de Jesus não era panorâmico. Era cirúrgico. Ele via o indivíduo onde a multidão via apenas o rótulo.

O porteiro de Resende precisou morrer para ser notado. Zaqueu estava vivo — e Jesus o encontrou antes que ele soubesse que havia sido procurado.

Cena 2 · João 4:7-26

A samaritana — o olhar que vê por baixo.

Ela veio ao poço ao meio-dia — o horário em que ninguém vai buscar água, justamente porque ninguém quer ser visto. Samaritana e com um histórico de cinco maridos: duplamente excluída, por etnia e por moral. O tipo de pessoa que carrega a invisibilidade como segunda pele.

Jesus pediu água, mas viu a sede que estava embaixo da sede. A conversa que se seguiu é uma das mais longas que Jesus tem com qualquer pessoa nos Evangelhos — e é com uma mulher anônima, rejeitada, sozinha num poço ao sol do meio-dia.

João 4:13-14

“Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede.”

João 4:13-14

Ele não a condenou. Não desviou o olhar. Viu o que ela precisava antes que ela soubesse pedir. E ao final, essa mulher — a mais improvável — tornou-se a primeira evangelista do Messias em sua cidade. O olhar de Jesus a devolveu a si mesma.

Cena 3 · Mateus 9:35-38

A multidão — o olhar que se move.

A maioria de nós aprendeu a olhar multidões como massa — como dado, como estatística, como contexto. Jesus olhava multidão e via pessoas. Uma por uma. Aflitas. Desamparadas. Sem pastor.

Mateus 9:36

“Vendo as multidões, Jesus teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor.”

Mateus 9:36

O verbo é encadeado: Jesus viu — o que viu gerou compaixão — a compaixão gerou missão. O olhar de Jesus nunca era passivo. Era um olhar que se movia. Resende alertava que o adulto de rotina vê sem ver. Jesus via e era imediatamente afetado pelo que via. Não havia distância entre o olhar e o coração.

Cena 4 · João 1:42

Pedro — o olhar que vê quem você vai ser.

Simão chegou como qualquer pessoa — com seu nome, sua história, suas instabilidades. O grego usa o verbo emblepo — olhar fixamente, com intensidade deliberada. Jesus o olhou assim e viu não apenas quem ele era, mas quem ele se tornaria.

João 1:42

“Jesus, fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas — que quer dizer Pedro, rocha.”

João 1:42

“Tu és… tu serás.” Esse é o olhar que não fica preso no presente. É o olhar que discerne a identidade que Deus está formando antes que a própria pessoa consiga vê-la. O porteiro de Resende nunca ouviu alguém dizer quem ele poderia se tornar. Jesus fez exatamente isso — antes que Pedro tivesse feito qualquer coisa para merecer.

O olhar como postura do discipulador

Há líder que nunca viu seu discipulado.

O problema da crônica de Resende não é que o profissional fosse uma pessoa má. É que ele era uma pessoa comum. E na rotina do discipulado, é perfeitamente possível passar meses ao lado de alguém sem nunca tê-la visto de verdade.

Não porque não se importe. Mas porque o hábito apagou o olhar. Há pastor que conhece o rótulo de cada membro sem conhecer o nome do porteiro que abre a porta todo domingo.

“Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia a dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.”Otto Lara Resende — Vista Cansada, 1992

O discipulado que imita o olhar de Jesus começa com uma decisão de ver. Não de avaliar — ver. De perguntar o que está por baixo da resposta automática. De chamar pelo nome com intenção — não como protocolo, mas como reconhecimento.

O olhar que não busca os próprios interesses

“Não olhe cada um apenas para os seus próprios interesses, mas também para os interesses dos outros.”

Filipenses 2:4

Olhar como Jesus olha não é uma técnica. É uma orientação do coração que se desenvolve à medida que passamos tempo com Ele — sendo vistos por Ele primeiro. Você aprende a ver os outros quando descobre que foi visto.

Aprender a ver de novo

Cinco movimentos para um olhar limpo.

Resende preferia a proposta de ver cada coisa como se fosse a primeira vez. Aqui está o que isso significa na prática do relacionamento, do discipulado e da cura.

1

Aprenda o nome — e o que há por trás dele

Jesus chamou Zaqueu pelo nome antes de qualquer conversa. O nome não é protocolo — é reconhecimento. Pergunte não apenas “qual é o seu nome”, mas “o que tem pesado de verdade”. A pergunta que vai por baixo.

2

Deixe o que você vê te mover

O olhar de Jesus nunca era estático — ver gerava compaixão, compaixão gerava missão. Cultive a capacidade de ser afetado. Resista ao anestesiamento da rotina. Quando você parar de sentir ao ver, é hora de pedir olhos novos.

3

Fale identidade, não só comportamento

Jesus disse a Simão quem ele seria — antes que ele provasse qualquer coisa. Há pessoas ao seu redor esperando ouvir o “tu serás” que Deus já te mostrou sobre elas. Não guarde. Declare.

4

Veja a sede que está embaixo da sede

A samaritana veio buscar água. Jesus viu o que ela realmente precisava. Toda resposta automática esconde uma pergunta mais profunda. Treine o olhar para o que está por baixo — o comportamento sempre conta uma história maior.

5

Cheque o porteiro

Pense em alguém com quem você cruza toda semana sem realmente ver. O porteiro. O vizinho. O colega de célula. O mais silencioso do grupo. Resende alertou: a invisibilidade não é exceção. É o padrão da rotina. Quebre-o deliberadamente.

O olhar que restaura a identidade

“Em vez da vossa vergonha, tereis dupla honra; em vez da confusão, exultareis na vossa herança.”

Isaías 61:7

Você é visto

Você não precisa morrer para ser notado.

Há um ponto que este artigo não pode deixar em segundo plano: antes de aprender a ver como Jesus vê, você precisa saber que Jesus está te vendo assim.

O porteiro de Resende levou trinta e dois anos para ser notado. E só foi notado depois de morrer. Essa imagem é perturbadora porque é o avesso exato do que acontece com cada pessoa diante de Jesus. Você não precisa morrer para ser visto. Não precisa subir numa árvore. Não precisa vir ao poço no pior horário do dia para que alguém finalmente te encontre.

Jesus já parou. Já levantou os olhos. Já sabe seu nome.

A identidade declarada antes de tudo

“Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu.”

Isaías 43:1

O bom pastor conhece pelo nome

“Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem a mim.”

João 10:14

Zaqueu era o menor da multidão — e Jesus o encontrou na copa de uma árvore. A samaritana era a mais improvável das testemunhas — e Jesus passou metade da conversa desvelando quem ela realmente era. Pedro era instável, impulsivo, cheio de contradições — e Jesus o olhou fixamente e viu uma rocha.

Talvez você esteja lendo isto carregando a sensação de que seu papel é pequeno demais para importar. Que você precisa ainda crescer muito antes de ser visto como alguém com valor no reino. Que há outros maiores, mais visíveis, mais capazes na multidão.

“Quando Jesus chegou àquele lugar, olhou para cima e disse:

Zaqueu, desce logo, pois hoje preciso ficar em tua casa.”

Ele chegou. Ele parou. Ele levantou os olhos.

Ele sabe o seu nome.

— Ver Vendo · Lucas 19:5

“Os olhos são a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será cheio de luz.”

Mateus 6:22

RESENDE, Otto Lara. “Vista Cansada”. Folha de S.Paulo, São Paulo, 23 de fevereiro de 1992.

 

Marcelo Teixeira ·  Fisherman Group